quinta-feira, 23 de julho de 2015

MEIA NOITE EM PARIS



Ah, a nostalgia. É sempre ela que embaça nosso julgamento, faz crer que o passado é muito melhor que o presente e não nos deixa vislumbrar um futuro possível. As vezes me pergunto se aos 30 não sou nostálgico em demasia, valorizando demais obras que em revisão envelheceram mal.


 Enfim. A pergunta que cabe aqui é: alguém pode me responder como é que um senhor de quase 80 anos fez um filme com vigor de moleque, um dos melhores da nova década? Um verdadeiro manifesto humanista e anti-nostálgico: isso é Meia-Noite em Paris, o melhor filme de Woody Allen em muito tempo, que me fez sair do cinema gargalhando de felicidade, com a sensação de refeição completa, um banquete cinematográfico inigualável. E agora revisto na televisão é ainda mais fantástico, mais apropriado ainda. 

  O filme conta a história de Gil (Owen Wilson na melhor atuação da carreira), roteirista que ganha a vida escrevendo filmes sem alma em Hollywood. E o que é pior, ele já se deu conta disso. Junto com sua noiva, Inez (Rachel McAdams, linda e competente), vão passar as férias em Paris e na verdade o que temos aqui é o choque de duas visões opostas sobre o romantismo, encapsuladas em personagens que poderiam cair no estereótipo fácil, mas não nas hábeis mãos de Allen: Gil é o artista que acredita na cidade-luz como combustível para a inspiração que irá melhorar sua arte. Ele crê que estar ali, no berço artístico onde tantos gênios conceberam obras imortais vai torná-lo um escritor melhor. Paris nos anos 20, a época da ´grande arte', é onde Gil sempre quis viver. Já Inez quer mesmo é que o marido ganhe muito dinheiro para ela fazer compras, no inferno dos intermináveis 'Malls' nos subúrbios da América. É uma escolha arriscada de Allen, a de colocar a noiva como uma vazia, sem alma, 'pós-moderna', apenas interessada na forma e no status que os títulos trazem, mas sem um mínimo de conteúdo. De qualquer forma, essa dicotomia entre as visões do casal é expressa logo no início do filme, e é brilhante.

  Logo em seguida aparece o amigo de Inez, Paul (interpretado com a dose correta de pedantismo pelo grande ator inglês Michael Sheen). É o típico clichê que Allen adora espinafrar, e com razão: o cara é um chato. Ele é a epítome do raciocínio  pós-doutorado que reina e engana tanta gente desavisada atualmente. Cita autores com muita facilidade, mas nós sabemos muito bem que ele é falso. E Gil, o alter ego de Allen e nosso herói no filme conhece arte, tem paixão por Paris, mas não é homem de citações, um falastrão. Ele sente a arte.

  E saber é sentir, essa é a máxima Alleniana desde os tempos de Annie Hall regente do seu universo intelectual. Os 'pseudos', que vomitam referências e tem uma aura de auto-importância, nada mais são do que bozos escrachados pela câmera que parece desnudar o idiota que existe dentro deles. E quem melhor do que Woody Allen para desmascará-los?

  Insatisfeito com essa verdadeira overdose de fakes querendo chamar mais a atenção para si do que para a beleza da arte e da cidade, Gil caminha sozinho pelas ruas de Paris durante a madrugada e súbito, um carro antigo o arrasta para uma outra época. A década de 20, em Paris. E eis que sem explicações picarescas ou artifícios baratos, estamos acompanhando Gil conversando com Hemingway, Fitzgerald. Dando conselhos para Buñuel, sendo influenciado por Salvador Dalí (Adrien Brody se divertindo à beça), se envolvendo num romance platônico com Adriana (Marion Cottilard, espetacular), entregando um manuscrito de seu livro ainda não lançado para a escritora Gertrude Stein (Kathy Bates em grande performance) analisar e dar sua opinião. Isso não antes de discutir o conteúdo de uma obra com Pablo Picasso.

  Como numa espécie de versão farsesca e delirante de 'De Volta para o Futuro', Allen coloca sua filosofia, sua visão de mundo na boca de todos os personagens, seja no presente ou no passado. Hoje temos o elogio ao filme que consegue comunicar com muitas pessoas. E no fim das contas acho que quem está interessado em ser muito abrangente corre o risco de não falar para ninguém. Allen não perde tempo em justificar sua posição. Seu cinema é uma carta de intenções: contra a nostalgia, contra as convenções, abertamente iconoclasta e romântico, adjetivo tão maltratado pelo cinema nos tempos que correm. Isso fala certamente para mim e está muito bem assim.

   A felicidade com que Gil interage com seus heróis nos faz lembrar que podemos ser reverentes em relação à arte, e não mitificar ou endeusar pessoas e obras que nunca tiveram esse tipo de senso de grandeza errado, orgulhoso, elitista e mofado enquanto produziam. Sempre desconfie de um artista que classifica seu trabalho novo como clássico.

    A boa arte está sendo feita agora, em silêncio, sem a pretensão de ser eterna ou vanguardista. Basta observarmos com atenção e entendermos que cada época tem a representação que precisa. Nem mais, nem menos. É claro que o passado glorioso pode e deve ser saudado com respeito, mas o que será do amanhã se todo mundo insiste em chafurdar nas referências de ontem?

   Então insisto para que os neófitos na obra de Woody Allen parem de endeusar sempre aqueles mesmos filmes (que são brilhantes mesmo, não contesto isso: Annie Hall, Manhattan, Hannah e Suas Irmãs) e se concentrem nas suas obras de 2000 para cá, todas riquíssimas em grande cinema e observações sobre a humanidade, coisa complicada de se decifrar. Posso afirmar que dentre esse bloco de filmes, Meia-Noite em Paris é a grande obra dele nessa década. Reverente, mas tentando deixar a nostalgia para trás. Como deve ser.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

HEMINGWAY E O FIM DE ALGUMA COISA

Conversava com um amigo por esses dias sobre a armadilha que é inserir numa obra de ficção os famigerados 'panos de fundo', contextos sociais ou históricos que emolduram ou refletem e até mesmo comentam intrigas pessoais, menores. Muitas vezes o primeiro acaba por sufocar o segundo ou, sacrilégio supremo, o autor periga usar o contexto histórico como rubrica pessoal e acaba por congestionar o enredo com impressões pessoais que invariavelmente não servem a nada senão como propaganda ideológica.

Um mestre como Ernest Hemingway fazia isso como tem que ser: a exposição de um ambiente acaba por retratar o psicológico dos personagens, e isso ecoa no leitor de maneira que a mescla se torna indissociável. Em "O Fim de Alguma Coisa", conto parte da antologia "As Aventuras de Nick Adams" (Tradução de Hélio Pólvora, Editora Artenova, 1973, p.176-180) o autor faz uso brilhante da ambientação para ilustrar o espaço psicológico de dois personagens que pouco falam, mas sabem que um romance está chegando ao fim. A decadência comercial da cidade madeireira Hortons Bay faz o contraponto perfeito , pano de fundo certeiro ao romance em vias de extinção de Nick Adams e Marjorie.

Utilizando o conto de atmosfera para mergulhar o leitor no drama dos personagens, Hemingway enche o texto de metáforas potentes e melancólicas, sugerindo o desmoronamento de um relacionamento conturbado. Em dado momento, os dois jovens estão preparando iscas para a captura de peixes, mas a melancolia de Nick já está latente desde a desconexão com a parceira, que o nota distante e estranho, até o momento em que o mesmo sentencia para a parceira uma série de frases cortantes, encerrando o conto com grande dose de amargura e revelando o que se passa em sua cabeça. Hemingway revela, afinal, a desesperança como unidade de efeito.

Nick Adams fita Marjorie intensamente e dispara: " -Deixou de ser divertido. Nem mesmo um pouquinho. Sinto-me como se tudo dentro de mim tivesse virado um inferno. Não sei Marge, não sei o que dizer."

Ela retruca: " -O amor não é divertido?"

Ele sela o destino deles, e do conto:

"- Não."


Segue o conto, na íntegra. Clique para expandir as páginas:




domingo, 19 de julho de 2015

AS COISAS SIMPLES DA VIDA

Eu gosto de hambúrguer de padaria, sabe aquele com pão, carne e uma fatia de queijo? Aquele que você saboreia rapidamente com uma coca-cola bem gelada. Não é uma refeição, não é nutritivo e não é um prato com ambições de comida gourmet.

Mas é uma fórmula perfeita. E isso é o ritual do pop.  

O pop é algo aparentemente efêmero e banal, mas não é para qualquer um. Jack Kirby é o pop perfeito, Beatles é pop perfeito, Quentin Tarantino faz pop perfeito, Oasis fez pop perfeito, o punk de Buzzcocks, Sex Pistols, Joan Jett e The Runanways, o início do Clash. Os sub-rótulos estão aí para serem usados à vontade, mas todos os citados tiveram uma ambição primordial: fazer o melhor trabalho, conectar com o maior público possível, sem medo do sucesso. Uma pretensão despretensiosa, porque é inclusiva, não tem devaneios de supremacia ideológica, não pretende criar guetos.

A estética 'gourmet' assola cinema, quadrinhos, música jovem. Menos é mais, mas não hoje. O barroco acumula vitórias. Muito quadrinhista querendo bancar o 'autor', 'críticos' exaltando qualidades em obras sem qualidades, cinema dito 'de arte' vendendo gato por lebre para uma audiência ansiosa por pedigree e não conteúdo, bandas de rock falando sobre o espaço sideral e dominação com mentalidade de mecenas.

Mas vez por outra o levante popular volta com tudo, e faz revolução. Aconteceu antes e vai continuar acontecendo. As mesas viram e a simplicidade complexa volta a ser bola da vez. Fazer pop não é fácil, o fácil é ser barroco e complicar.      

A IGREJA DA INCOMUNICABILIDADE


No mínimo curiosa essa banda relativamente recente, o Chvrches. Dois caras e uma garota mandando um som com estrutura de rock em canções trabalhadas com molho de pop eletrônico dos anos 80. Ou seja, o máximo em mudernidade  agora, em 2015. Sendo estritamente cínico e sem um pingo de bom senso, dá pra dizer que é uma requentada muito da mal-feita em Duran Duran, Depeche Mode, Pet Shop Boys com o molho de todo o novo rock feito de 2000 até agora.

A menina, Lauren Mayberry, canta com um senso de abandono e deslocamento, tornando o que seria trágico em estilo, enquanto os dois carinhas mandam bases pré-gravadas e eventuais linhas de guitarra e baixo. É a era do amadorismo, gente que fez música a vida inteira no quarto, agora transportados para grandes festivais, vendendo emoção em trilha de telefone celular.

Nada contra, mas é oposto do ideal punk, o do it yourself . Agora o amadorismo é fashion e todo mundo se veste impecavelmente, nascem prontos. Alguém pode argumentar que o punk também apregoava estética, mas o som era impactante, era desafiador.

Aqui não. O Chvrches canta sobre amores perdidos, amores encontrados, amores destruídos. Tudo sob a perspectiva de jovens classe média alta num cenário urbano, onde as consequências da vida de fato duram o episódio de um seriado de tv, cujo qual aspiram ser parte da trilha sonora. 

O som é milimetricamente calculado para fazer você se sentir dentro de um filme ruim do John Hugues rodado em Los Angeles na madrugada, nos anos 80. As letras não dizem nada, e a performance de palco não permite interação a não ser achar aquilo tudo lindo e querer filmar no iPhone. É tudo muito bonito e muito incomunicável. Enquanto eu assistia a performance da banda no pitchfork festival agora no final de semana, via internet, me senti emocionado e até impressionado com a capacidade do Chvrches em fazer hits, mas era mentira: não havia significado real algum na música deles.   

sábado, 18 de julho de 2015

NÃO ACREDITO EM DEUS, MAS ACREDITO EM AL PACINO


O título do post é uma apropriação minha de uma frase dita por Javier Bardem, quando questionado por um repórter sobre suas crenças pessoais. Faço das crenças dele as minhas. Acabo de assistir o novo filme de Al Pacino, "Manglehorn", dirigido por David Gordon Green. É uma fita sensacional; enxuta, é um estudo de personagem como o cinema americano fazia tão bem nos anos 70. E aqui está Pacino, atravessando sua quinta década de serviços prestados, entregando uma ótima atuação.

Se o público não quer mais saber desse tipo de filme, estão perdendo.

Cada geração de cinéfilos conheceu Al Pacino em um determinado momento. Quem sabe do que ele é capaz nunca mais o abandona. Eu o conheci nos anos 90, em "Fogo Contra Fogo", clássico policial dirigido por Michael Mann em que o ator contracena com outro monstro, Robert De Niro. Mas houve o Pacino dos anos 70, herdeiro definitivo de Brando em "O Poderoso Chefão" e nos filmes de Sidney Lumet. Nos 80, "Scarface" e seu Tony Montana influenciariam toda uma geração. Nos 90, o reconhecimento tardio com o Oscar por "Perfume de Mulher" e um sucesso comercial merecido com fitas como "Advogado do Diabo" e mais um brilhante filme sob a batuta de Michael Mann, "O Informante". Nos 2000 teve momento digno de nota em "Insônia" de Christopher Nolan e seguiu atuando em cinema e teatro, dirigindo documentários como "Wilde Salomé" em 2011. E agora na nova década surge com três petardos: "O Último Ato" de Barry Levinson, "Danny Collins" de Dan Fogelman e esse "Manglehorn", onde confirma a quinta década arrebatador, com fôlego de iniciante, ainda com muito a dizer.

Uma vez Lumet disse que o monólogo desesperado de Pacino ao telefone em "Um Dia de Cão" foi verdadeiro porque o desespero era genuíno. Estava nos olhos do ator. Olhamos nos olhos de Pacino e sabemos, acreditamos que ele não está blefando. Seu método é fascinante. Ele nunca decepciona.

Não acredito em Deus, mas acredito em Al Pacino.    

sexta-feira, 17 de julho de 2015

AMÉM, JOHN CASSAVETES


THE FLOWERS THAT ONCE WERE ANEW ARE SHADOWS

...teste: 




Heaven waits, in the darkness of her room
I'm shaking at the gates
From here to Timbuktu
Cold front rolls in, like a black balloon
And it sinks into your soul
And you tell it what you knew

How long do I have here with you?
How long do I have here with you?
How long?
The flowers that once were anew
Are shadows